quarta-feira, 27 de maio de 2009

CULTURA DO MEDO E DE MOTIVAÇÃO por Patricia Bispo

Num momento que as empresas preocupam-se em manter as equipes motivadas, ainda é possível encontrar organizações que investem na cultura do medo. Dessa forma, imaginam que colaboradores intimidados são mais fáceis de serem controlados e que isso pode resultar na melhoria do desempenho e, conseqüentemente, no aumento da produtividade. No entanto, ao alimentar o medo dentro do ambiente de trabalho, o "feitiço pode virar contra o feiticeiro", ou seja, a empresa provavelmente perderá valiosos talentos para a concorrência. Mas, como evitar que a cultura do medo contagie o ambiente corporativo? Que medidas práticas a área de Recursos Humanos pode adotar para que isso não afete o clima organizacional? Os líderes influenciam a cultura do medo? Para responder essas e outras questões que surgem ao redor desse assunto, o RH.com.br entrevistou Wagner Dias, consultor especialista em inteligência emocional, aprendizagem acelerada e relacionamento interpessoal. "A melhor prevenção é o treinamento, a integração entre os colaboradores e o conhecimento da missão e dos valores da empresa", afirma Wagner quando questionado se existe uma receita do RH evitar que o medo ganhe raízes entre os colaboradores. Confira a entrevista na íntegra e reflita sobre o assunto!

RH.com.br - O que caracteriza a cultura do medo dentro das empresas?
Wagner Dias - O próprio sistema organizacional, vertical e hierárquico adotado pelas empresas institui a presença do medo e faz com que os colaboradores não se sintam à vontade de se expressar livremente e, conseqüentemente, não produzam tudo que poderiam produzir se não estivessem vivendo um dia após o outro com vários tipos de medo.

RH - Quais os medos corporativos mais comuns que as empresas precisam conviver em relação à gestão de pessoas?
Wagner Dias - São vários, mas podemos dizer que os mais importantes que destacamos são o medo do fracasso, de errar, de não atender às expectativas, o que resultaria em demissão. Esse medo é muito presente já que todos os dias a mídia nos bombardeia com notícias negativas encabeçadas pela alta taxa de desemprego. Cada empresa tem suas particularidades e, antes de aplicar um treinamento é necessário elaborar um briefing detalhado para identificar quais os tipos de medos e crenças limitadoras presentes entre os colaboradores, para que seja possível transformá-los em sonhos e resultados concretos.

RH - Por que esses medos ganharam espaço dentro das empresas?
Wagner Dias - Simplesmente porque funciona motivar pelo medo. Muitos líderes, gerentes e diretores usam o medo como fator de motivação. Ameaçam os colaboradores dizendo que caso não façam o que deve ser feito, possivelmente não terão o emprego garantido e, com isso, os colaboradores acabam fazendo apenas e estritamente o que lhes foi mandado, sem questionar e muito menos ousar. Um dos meus maiores clientes adota a seguinte política: se o gerente não cumprir a meta estabelecida por três meses consecutivos ele é demitido. Imagine, então, como é o clima dentro dessa empresa.

RH - Dentre os medos que o Sr. citou, qual o mais grave e que conseqüentemente compromete a vida das empresas?
Wagner Dias - Como disse, os colaboradores entram em ação quando têm medo, porém, mais cedo ou mais tarde todos superam o medo. Os colaboradores deixarão de entrar em ação se o único fator que os motiva for o medo, então a liderança começará a ser questionada, as metas não serão alcançadas e, é claro, a médio prazo essa empresa enfrentará sérios problemas e quem começará a ter medo será a diretoria.

RH - Na prática, qual a melhor alternativa para combater os medos corporativos?
Wagner Dias - O primeiro passo é identificar se a cultura do medo está totalmente presente na empresa. Assim que identificado o fato, é necessária uma substituição urgente da forma de liderar, ou seja, trocar o medo de perder pela vontade de ganhar. Liderar uma equipe que tem sede de vencer é mais excitante, exige mais das competências de cada um, faz com que todos estejam comprometidos e conseqüentemente alcancem grandes resultados. Nos treinamentos que realizo, por exemplo, utilizo dinâmicas e vivências que além de integrar melhor os colaboradores fazem com que os medos, os receios, as barreiras e as crenças limitadoras sejam ressignificadas e transformadas em sonhos, metas e, acima de tudo, em vontade de vencer.

RH - Como é possível evitar que os medos surjam e contaminem as equipes?
Wagner Dias - A melhor prevenção é o treinamento, a integração entre os colaboradores e o conhecimento da missão e dos valores da empresa. Não quero com isso dizer que o colaborador treinado não tem medo, mesmo porque todas as pessoas têm medo. O que quero deixar claro é que quando há treinamento o colaborador se sente notado, valorizado e até mesmo importante dentro da organização e com isso apto a encarar seus medos de frente.

RH - O Sr. acredita que algumas empresas ainda alimentam a presença da cultura do medo por falta de informação ou ainda é usada como "estratégia"?
Wagner Dias - Não acredito em falta de informação, pois sei como os profissionais de RH trabalham para levar conhecimento a todos os departamentos de uma empresa. Acredito sim em estratégia para liderar e motivar os colaboradores, pois sabemos hoje que uma pessoa gasta quatro vezes mais energia para fugir da dor do que para obter prazer. O que vem acontecendo é que a "sensação" agora ficou evidente para a liderança que a equipe poderia produzir mais, ousar mais, forçar mais nas negociações, lutar por metas maiores. Mas, o que percebem é uma equipe que faz simplesmente o que foi mandada fazer, cumprindo metas, aceitando e negociando no limite mínimo, tudo por medo de perder, medo de errar, medo de fracassar. Há alguns anos meu trabalho era melhorar os relacionamentos interpessoais, integrar o time e fazê-lo sentir-se em casa, em família, aumentar o grau de confiança e reciprocidade. Hoje o foco dos meus treinamentos tem sido ajudar os colaboradores a perceberem que podem mais, que devem ousar e que têm capacidade de vencer para que a empresa consiga substituir a estratégia do medo pela estratégia da motivação por resultados.

RH - Quais os riscos que uma empresa corre ao alimentar a cultura do medo entre os funcionários?
Wagner Dias - Sabemos o quanto é caro e trabalhoso preparar uma pessoa para qualquer que seja o cargo e, muitas vezes, depois de todo o trabalho feito, o RH recebe a notícia de que está perdendo um talento e é o que mais tem acontecido dentro das organizações. Isso faz com que o RH tenha que novamente contratar um profissional, treiná-lo e esperar pela nova notícia. Devido a esse círculo vicioso, muitos empresários questionam a importância dos treinamentos, alegando que investem, treinam o colaborador e depois o perdem para o concorrente. O que provo a esses empresários é que pior que treiná-los e perdê-los é não treiná-los e continuar com eles.

RH - A cultura do medo ainda está muito presente nas empresas brasileiras?
Wagner Dias - Acredito que não só entre as empresas brasileiras, mas o medo tem se mostrado presente em todas as empresas do mundo, porque é um processo de aculturação que vem acontecendo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Hoje, posso perceber que na maioria das empresas em que presto consultoria o medo é visível aos olhos. Quando chego para fazer uma palestra, seminário ou mesmo uma convenção percebo que a maioria dos colaboradores fica me olhando um tanto quanto desconfiados, esperando por uma notícia ruim, quando na realidade o meu papel ali é incentivá-los a sonhar, a ousar a vencer as barreiras que eles próprios impuseram.

RH - Como a área de Recursos Humanos deve lidar com a cultura do medo no dia-a-dia?
Wagner Dias - O RH tem um papel importantíssimo, pois cabe a ele identificar e interromper esse jogo de espada-escudo, perde-ganha, manda-obedece. É o profissional de RH que pode, e deve, substituir a cultura do medo por uma motivação que não acaba nunca, que é a vontade de ganhar. O treinamento contínuo é uma ferramenta imprescindível para fazer com que uma equipe entre em ação, disposta a utilizar todos os recursos que possui, sem restrições, sem receios, sem medo.

http://www.worksolutionrh.com.br/artigo.asp?codigo_artigo=9

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