quarta-feira, 27 de maio de 2009

VOCÊ É HANDS ON?? (Max Gehringer-Colunista Revista EXAME)

Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía
mesmo essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800
reais. Ou seja, um pitico.

Não que esse fosse algum exemplo absolutamente fora da realidade. Pelo
contrário, ele é quase o paradigma dos anúncios de emprego atuais. A
abundância de candidatos está permitindo que as empresas levantem, cada vez
mais, a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E
muitos, de fato, saltam. E se empolgam.

E aí vêm as agruras da superqualificação, que é uma espécie do lado avesso
do efeito pitico..

Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem
preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de
atendimento interno. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges,
gerente da contabilidade.

- Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
- In a hurry!
- Saúde.
- Não, isso quer dizer "bem rapidinho". É que eu tenho fluência em inglês.
Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se
aqui só se fala português?
- E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
- O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho
profundos conhecimentos de informática.
- Não, não. Cópias normais mesmo.
- Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já
comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que
tiramos.
- Fabiana, desse jeito não vai dar!
- E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar. - Como assim? - É que
eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um
desperdício do meu potencial energético.
- Olha, neste momento, eu só preciso das três có...
- Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
- Futuro? Que futuro?
- É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não
aconteceu nada.
- Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada! - Sei.
Mas o senhor é hands on?
- Hã?
- Hands on. Mão na massa.
- Claro que sou!
- Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair
por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu
fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:
1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm
as qualificações requeridas.
2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos
porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão
usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo
prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo
preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. Em uma empresa em
que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente
superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante
desavisado que chegasse de repente confundiria nossa salinha do café com o
auditório da Fundação Alfred Nobel. Pessoas superqualificadas não resolvem
simples problemas !
Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas e
no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento
do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto,
motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha
noções de informática e possuía energia e
criatividade. Sem mencionar que estava fazendo pós-graduação. Só que não
sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava
tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de
bicicleta. Para horror de todos, ele falava "nóis vai" e coisas do gênero.
Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar.

Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida. Aquele ciclista
anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas torcem
o nariz : O que é capaz de resolver, mas não de impressionar.

Vi um anúncio de emprego. A vaga era de gestor de atendimento interno, nome
que agora se dá à seção de serviços gerais. E a empresa contratante exigia
que os eventuais interessados possuíssem - sem contar a formação superior ,
liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática,
fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem hands on.

VOCÊ É HANDS ON?? (Max Gehringer-Colunista Revista EXAME)

Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía
mesmo essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800
reais. Ou seja, um pitico.

Não que esse fosse algum exemplo absolutamente fora da realidade. Pelo
contrário, ele é quase o paradigma dos anúncios de emprego atuais. A
abundância de candidatos está permitindo que as empresas levantem, cada vez
mais, a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E
muitos, de fato, saltam. E se empolgam.

E aí vêm as agruras da superqualificação, que é uma espécie do lado avesso
do efeito pitico..

Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem
preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de
atendimento interno. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges,
gerente da contabilidade.

- Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
- In a hurry!
- Saúde.
- Não, isso quer dizer "bem rapidinho". É que eu tenho fluência em inglês.
Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se
aqui só se fala português?
- E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
- O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho
profundos conhecimentos de informática.
- Não, não. Cópias normais mesmo.
- Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já
comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que
tiramos.
- Fabiana, desse jeito não vai dar!
- E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar. - Como assim? - É que
eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um
desperdício do meu potencial energético.
- Olha, neste momento, eu só preciso das três có...
- Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
- Futuro? Que futuro?
- É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não
aconteceu nada.
- Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada! - Sei.
Mas o senhor é hands on?
- Hã?
- Hands on. Mão na massa.
- Claro que sou!
- Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair
por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu
fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:
1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm
as qualificações requeridas.
2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos
porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão
usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo
prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo
preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. Em uma empresa em
que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente
superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante
desavisado que chegasse de repente confundiria nossa salinha do café com o
auditório da Fundação Alfred Nobel. Pessoas superqualificadas não resolvem
simples problemas !
Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas e
no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento
do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto,
motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha
noções de informática e possuía energia e
criatividade. Sem mencionar que estava fazendo pós-graduação. Só que não
sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava
tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de
bicicleta. Para horror de todos, ele falava "nóis vai" e coisas do gênero.
Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar.

Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida. Aquele ciclista
anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas torcem
o nariz : O que é capaz de resolver, mas não de impressionar.

Vi um anúncio de emprego. A vaga era de gestor de atendimento interno, nome
que agora se dá à seção de serviços gerais. E a empresa contratante exigia
que os eventuais interessados possuíssem - sem contar a formação superior ,
liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática,
fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem hands on.

VOCÊ É HANDS ON?? (Max Gehringer-Colunista Revista EXAME)

Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía
mesmo essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800
reais. Ou seja, um pitico.

Não que esse fosse algum exemplo absolutamente fora da realidade. Pelo
contrário, ele é quase o paradigma dos anúncios de emprego atuais. A
abundância de candidatos está permitindo que as empresas levantem, cada vez
mais, a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E
muitos, de fato, saltam. E se empolgam.

E aí vêm as agruras da superqualificação, que é uma espécie do lado avesso
do efeito pitico..

Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem
preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de
atendimento interno. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges,
gerente da contabilidade.

- Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
- In a hurry!
- Saúde.
- Não, isso quer dizer "bem rapidinho". É que eu tenho fluência em inglês.
Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se
aqui só se fala português?
- E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
- O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho
profundos conhecimentos de informática.
- Não, não. Cópias normais mesmo.
- Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já
comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que
tiramos.
- Fabiana, desse jeito não vai dar!
- E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar. - Como assim? - É que
eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um
desperdício do meu potencial energético.
- Olha, neste momento, eu só preciso das três có...
- Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
- Futuro? Que futuro?
- É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não
aconteceu nada.
- Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada! - Sei.
Mas o senhor é hands on?
- Hã?
- Hands on. Mão na massa.
- Claro que sou!
- Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair
por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu
fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:
1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm
as qualificações requeridas.
2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos
porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão
usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo
prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo
preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. Em uma empresa em
que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente
superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante
desavisado que chegasse de repente confundiria nossa salinha do café com o
auditório da Fundação Alfred Nobel. Pessoas superqualificadas não resolvem
simples problemas !
Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas e
no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento
do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto,
motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha
noções de informática e possuía energia e
criatividade. Sem mencionar que estava fazendo pós-graduação. Só que não
sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava
tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de
bicicleta. Para horror de todos, ele falava "nóis vai" e coisas do gênero.
Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar.

Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida. Aquele ciclista
anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas torcem
o nariz : O que é capaz de resolver, mas não de impressionar.

Vi um anúncio de emprego. A vaga era de gestor de atendimento interno, nome
que agora se dá à seção de serviços gerais. E a empresa contratante exigia
que os eventuais interessados possuíssem - sem contar a formação superior ,
liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática,
fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem hands on.

http://osdir.com/ml/sigs.pmbok.brazil/2004-12/msg00052.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário